terça-feira, 28 de junho de 2016

Sem Título IV

Poema de Jean Silveira

de frente ao espelho
posto à parede
amarelada
do quarto escuro
uma luz toca
a minha pele
transfigurando
todo o meu corpo
apesar disso
o novo rosto
não me é tão estranho
não, o reconheço
sim, é ele mesmo
só pode ser
João de Maria
o eletricista
que finalmente
vem do trabalho
por volta de umas
oito ou nove horas
numa segunda
do mês de junho
põe sua maleta
de ferramentas
no guarda-roupa
tira o coturno
amarronzado
despe a camisa
Pólo azulada
onde se vê
escrito "Chesf"
no peito esquerdo
e beija o dorso
das mãos da esposa
que se ocupara
de continuar
a lavar pratos
e preparar
sopa de carne
enquanto João
volta-se ao espelho
das apreensões
sobre o passado
e o tal futuro
diante do qual
olha nos olhos
e fecha os punhos
encaliçados.

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