quarta-feira, 6 de julho de 2016

Bagaço

Poema de R. Mineiro


Séculos de cana,
De gente e terra
Que viram cana
Cambitam cana.

Vaqueiro que vira pasto
Pra se vestir de gado.
Morador que vira roça
Pra se tornar farinha.

Cana sem garapa
Gente sem suor.

Engenho que chupa
Cana chupa gado,
Chupa farinha
E as filhas da gente.

Engenho que cospe
Bagaço, que cospe.
No bagaço de gente
Que ele chupa por dentro.

Bagaço da cana
Regaço da gente

Engenho arrogante
Nem olha pra gente,
Em fogo morto
Se ajoelha pra usina.

A fome é maior
Do povo e da usina,
O bagaço é o mesmo:
Gente, terra, farinha.

Usina que come
Gente e cana
Cospe álcool
Escarra açúcar

Usina mastiga
Ferro e gente
Cospe aço,
Proletário bagaço.

Chupam garapa,
Sangue e suor.

Usina de cana
Ou aço,
Destinos distintos
O mesmo bagaço.

Na canga do burro: açúcar
Nas burras da canga: aço
No porto, navios cambitam.
Pobreza são burros de aço.

No cais resta estranha
Riqueza, xepa e bagaço.
Gente moída, bago de gente,
Gente de aço, gente cangaço.

O bagaço é azedo
Fede a suor,
A garapa doce,
Atraente, diabética.

Bagaço é fibra
Garapa é divida
Chumaço nômade
Açúcar sedentário.

Melaço da cana,
Graxa da fabrica,
Lama do mangue
É a cor do bagaço.

Usina de cana
Ou aço,
Destinos distintos
O mesmo bagaço.

Na canga do burro: açúcar
Nas burras da canga: aço
No porto, navios cambitam.
Pobreza são burros de aço.

No cais resta estranha
Riqueza, xepa e bagaço.
Gente moída, bago de gente,
Gente de aço, gente cangaço.

O bagaço é azedo
Fede a suor,
A garapa doce,
Atraente, diabética.

Bagaço é fibra
Garapa é divida
Chumaço nômade
Açúcar sedentário.

Melaço da cana,
Graxa da fábrica,
Lama do mangue
É a cor do bagaço.

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