quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A Arquitetura precisa reconhecer, além do papel social, os debates sobre Raça e Gênero.

Artigo de Stephanie Ribeiro




Resolvi fazer arquitetura de forma bem inocente depois de ter feito vários testes vocacionais que encontrei no Google. Quando descobri ser um dos cursos mais concorridos nas universidades públicas brasileiras, pensei em desistir. Mas já estava fisgada pela história da arquitetura e seu papel social.
Entretanto, nada é perfeito. Arquitetura e Urbanismo é um dos cursos mais elitizados nas mais renomadas universidades brasileiras e isso reflete também para fora das salas de aula. O arquiteto passou a servir aos mais ricos, deixando de lado as necessidades urbanas e os mais pobres.
Para Elisabete França, arquiteta que, durante 7 anos coordenou o Programa de Saneamento Ambiental da Bacia do Guarapiranga e foi Superintendente da Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo, entre 2005 e 2012, essa tendência está mudando: “Há pessoas sem acesso às condições mínimas de direitos, como saneamento básico, e a arquitetura busca resolver isso. Outra questão que se discute na arquitetura é a questão da imigração. Demandam-se respostas rápidas para alojamento e a expansão das cidades”.
Por mais que as questões de classe venham sendo debatidas e pensadas por um nicho de profissionais, a arquitetura precisa reconhecer também os debates sobre raça e gênero. Esses não podem continuar sendo negligenciados no currículo do curso. Por isso, já no primeiro ano, uma das minhas prioridades era a busca por mulheres e homens como eu: negros arquitetos e urbanistas tão reconhecidos quanto Paulo Mendes da Rocha, Oscar Niemeyer, Artigas e Siza.
Nessa busca, descobri que além de Zaha Hadid e Lina Bo Bardi, existem inúmeras mulheres se destacando em tudo que a Arquitetura e Urbanismo representa. Aqui elas ganham voz e destaque.
Representatividade: Georgia Louise H. Brown e Allison Williams
Uma das coisas com as quais sempre sonhei foi pisar num prédio projetado por uma mulher negra, como eu. Foi quando conheci Georgia Louise H. Brown, uma das pioneiras da arquitetura moderna nos Estados Unidos. Em São Paulo, no cruzamento da Av. Ipiranga com a Av. São João, há registros apontando que o prédio do Citibank foi projetado pela arquiteta norte-americana, que trabalhou com grandes nomes como Mies Van Rohe. Ainda em São Paulo, ela projetou casas para a família Matarazzo. Aparentemente, a elite brasileira prestigiava seu talento.
Georgia veio para o Brasil porque considerava que aqui teria mais chances do que nos Estados Unidos enquanto mulher e negra. Brown fez parte de um capítulo da Chicago Alpha Gamma, uma associação profissional de arquitetas e foi, provavelmente, a primeira negra. Georgia Louise foi um destaque na época em que mulheres negras brasileiras ainda não gozavam da oportunidade de cursar Arquitetura e Urbanismo no Brasil.
Allison Williams, também negra e norte-americana, foi responsável por definir a estratégia de design da empresa de arquitetura Perkins & Will, em São Francisco. Como arquiteta principal, ela trabalha em projetos da companhia que incluem instituições culturais, instalações de empresas e desenvolvimentos high-rise. Alguns de seus projetos principais incluem: August Wilson Center for African American Culture em Pittsburgh; The San Francisco Civic Center Complex; The Singapore National Research Foundation; Jan and Dan Duncan Neurological Research Institute.
Mobiliário e Azulejos: Charlotte Perriand e Dora Alcântara
Charlotte Perriand é um dos nomes mais injustiçados na arquitetura. Suas obras são amadas, reverenciadas, mas, de forma controversa e equivocada, por vezes atribuídas a outras pessoas (no caso, homens). Em 1925, ela exibiu um mural na Exposition des Arts Décoratifs. Três anos depois, após já ter conquistado destaque na área, Charlotte ganhou dois livros, Vers une Architecture e L’art Décoratif D’aujour D’hui. Nesse momento, ela resolveu arriscar e pleitear uma vaga no aclamado escritório de Le Cobusier.
“Nós não empregamos bordadeiras aqui.” Essa foi a frase proferida pelo consagrado arquiteto em resposta à Charlotte. Só quando ela passou a destacar-se no projeto de mobiliários, a negativa foi reconsiderada e Charlotte contratada para fazer os projetos dos mobiliário internos dos clientes do escritório. Silvana Rubino escreveu sobre Perriand e seu trabalho também está no site Arquitetas Invisíveis.
Dora Alcântara também se destacou em meio à predominância masculina na década de 60. Formada pela Faculdade Nacional de Arquitetura, atual FAU/UFRJ, dedicou a carreira ao ensino e à preservação do patrimônio. Por meio dos estudos sobre azulejos, fotografias e croquis, tornou-se uma investigadora da azulejaria brasileira. Quando entrevistada sobre questões de gênero pelo CAU/BR afirmou: “Acho muito bom homens e mulheres trabalharem juntos, pois são sensibilidades complementares. À medida que a mulher entra no mercado, tenho esperança de que a fusão de sensibilidades nos leve a apresentar algo de novo, de especial, na arquitetura.” Segundo ela, o ingresso de mulheres na arquitetura vem sendo notado desde a década de 60, porém ainda é recente e pouco reconhecido.
É importante destacar outras formas de atuação, onde mulheres arquitetas tiveram êxito para além da construção de edifícios ou grandes residências, mostrando que a pluralidade da profissão e o ingresso de mulheres movimenta todos os campos.
Questões de Gênero: Patricia Anahory
Formada em Boston e com mestrado em Princeton, Patricia Anahory trabalhou a questão de gênero, sociedade de controle e arquitetura na publicação “Reframing the Body: A Women’s Prison”, que estuda sobre a intersecção desses temas e a forma como a arquitetura manifesta-se nesse contexto.
Em seu mestrado, Anahory questionou as relações pressupostas de lugar e identidade reconsiderando associações de corpo-chão-memória-identidade-lar-terra na reavaliação do conceito de memória e [re]construção, e sua tradução de arquitetura: o memorial. Ela conta com projetos de arquitetura e design independentes nos EUA, Cabo Verde e Gana. Em 2000, Patricia viajou por todo o continente africano estudando a relação entre arquitetura e identidade.
Para ter mais informações sobre arquitetos africanos, vale conhecer o projeto Arqui_África – Arquitetura Africana.
Latinas: Carmen Córdova
Nos estudos de Arquitetura e Urbanismo, é notável a negligência ao citarmos a arquitetura produzida na América Latina. Mesmo que estejamos falando de países vizinhos, os estudantes de arquitetura brasileiros acabam tendo uma noção superficial dos trabalhos latino-americanos.
Carmen Córdova, arquiteta argentina, integrante da OAM Group (Organização da Arquitectura Moderna), em 2004, recebeu o prêmio de mérito artístico do National Endowment for the Arts. Córdova e seu marido ganharam o concurso de Colegio Mayor Universitario Hispano Argentino Nossa Senhora de Lujan, em Madri. Em 2001, escreveu o livro “Memorias de Modernidad”, como uma resposta rebelde a um mundo global e injusto do qual discordava total e frontalmente.
Na publicação “Arquitetas e Arquitetura na América Latina do Século XX”, escrito por Ana Gabriela Godinho Lima é possível ter uma visão feminina e latina da arquitetura do último século. Ana também mantém o site Feminismo e Plural, onde aborda as relações de arquitetura e gênero.
Literatura: Lesley Lokko e Yewande Omotoso

Sempre fui questionada por meus colegas de faculdade se gostava mais de arquitetura ou de literatura. Foi quando conheci Lesley Lokko, arquiteta ganense, e Yewande Omotoso, arquiteta que nasceu em Barbados, porém passou grande parte da sua vida na Nigéria. Ao conhecê-las, tive um pouco de paz sobre as minhas buscas nos dois campos. Foi com elas que entendi ser possível conciliar muito bem meus dois interesses. A primeira, Lokko, já escreveu sete livros e ministra palestras sobre identidade cultural e racial:
“Levou 7 anos para me tornar arquiteta e assim que terminei, mudei de ideia. Tornei-me escritora em tempo integral há cerca de 10 anos e, mesmo que alguns momentos sinta saudades da emoção de construir/projetar e fazer design de espaços, eu realmente amo o que faço.”

Já Yewande estudou arquitetura na Universidade da Cidade do Cabo, onde completou seu mestrado em Escrita Criativa. O resultado do seu mestrado é seu romance de estréia “Bomboy”, que foi publicado em 2011. Ganhou o Prêmio Literário Sul-Africano de 2012 na categoria autor publicado e foi indicada para o Prêmio Ficção Sunday Times 2012 na África do Sul, bem como recebeu indicação ao M-Net Awards 2012, e foi o vice-campeã para o Prémio 2013 Etisalat para Literatura. Inclusive, ela se destaca como escritora feminista, com seus diversos artigos que abordam a questão de gênero.
A página In_visibilidad De La MUJER En La Arquitectura destaca mulheres arquitetas e seus trabalhos, e mantém vivo o questionamento sobre a invisibilidade das mulheres na área.
Paisagismo: Rosa Kliass

Ao pensar em paisagismo nas aulas de arquitetura, principalmente no eixo Rio – São Paulo, um nome ganha sempre destaque: Burle Marx. Entretanto, Rosa Kliass é não só uma referência na área como uma das responsáveis pelo paisagismo ter se tornando um campo reconhecido nacionalmente.
Kliass assinou inúmeras obras: projetos paisagísticos para a Avenida Paulista (1973), a revitalização do Vale do Anhangabaú (1981), ambos em São Paulo, e mais recentemente, no início dos anos 2000, obras em grande escala para os Estados do Amapá (Parque do Forte) e do Pará (Mangal das Garças). Ainda em São Paulo, o projeto paisagístico para o Parque da Juventude (inaugurado em 2003 e concluído em 2007), na capital, foi premiado pela Bienal de Arquitetura de Quito em 2004, uma das muitas premiações de sua carreira.
Qual o papel da arquitetura social?
Em janeiro desse ano, a vitória do chileno Alejandro Aravena no Prêmio Pritzker, premiado por mostrar como a arquitetura pode melhorar a vida das pessoas, promete intensificar o debate sobre o papel social e transformador da prática.
O Pritzker já premiou os brasileiros Oscar Niemeyer (em 1988) e Paulo Mendes da Rocha (em 2006), cujos trabalhos levantavam discussões sobre o papel social da arquitetura. Os arquitetos brasileiros podem ser considerados grandes precursores do pensamento sobre arquitetura social. Entretanto, anos depois, falamos de arquitetura social olhando de cima para baixo, ou seja, de forma hierarquizada e elitista.
Em entrevista ao Nexo, a Arquiteta e Professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Raquel Rolnik, afirmou que:

“Infelizmente, nas últimas décadas, a arquitetura mainstream foi capturada pelo complexo imobiliário e financeiro servindo como âncora para grandes operações de expansão da fronteira do mercado imobiliário financeirizado. O que percebemos é uma espécie de declínio da utopia modernista da arquitetura como função social na direção da constituição de monumentos ao consumo e submissão da lógica da rentabilidade máxima do solo urbano. Ao menos, percebemos, cada vez mais, movimentos de contestação desse modelo e que estão estruturados em torno do direito à cidade, com participação de arquitetos e urbanistas”.
Como falar de uma arquitetura social se nem internamente consideramos a necessidade do debate sobre gênero, classe e raça?
Mas a área de Arquitetura e Urbanismo precisa de mais mulheres se destacando, sendo objeto de estudo e pesquisa; ou seja, profissionais sendo celebradas. A importância da leitura sobre espaços públicos e coletivos feitos por mulheres é nítida. Estudos apontam que escritórios com a presença de arquitetas e urbanistas mulheres têm desempenho acima da média.
Lembro até hoje como me senti representada lendo meu primeiro livro escrito pela Erminia Maricato ou descobrindo que Annabelle Selldorf fundou e montou um escritório só com mulheres. Mesmo com tantos nomes se destacando em premiações como o Pritzker, com mais de cinquenta vencedores, temos apenas duas mulheres: Zaha Hadid (2004) e Kazuyo Sejima pelo Saana (2010). O Pritzker premia em sua maioria homens brancos. Mesmo quando esses tiveram toda a sua carreira em conjunto com uma mulher, ela não é reconhecida. E como sempre, nenhum negro.
A arquitetura que tem a pretensão de ser social deve reconhecer, para além das questões de classe, o debate sobre gênero e raça. Já é sabido que mulheres negras ocupam as piores áreas dentro de uma favela, mas não é preciso nenhuma pesquisa elaborada para saber que somos nós, negras, a minoria nas salas de aula de Arquitetura e Urbanismo do país. Nos escritórios nacionais que se destacam, é gritante a ausência ou escassez de mulheres.
Isso é fruto de uma arquitetura que só se diz social nas chamadas de matérias e ao longo de publicações, e não na prática. Na arquitetura, teoria e prática são incoerentes. São palavras demais, são descrições e projetos demais enquanto, no âmbito tangível e palpável, ações e realizações de menos.
Stephanie Ribeiro, é estudante de Arquitetura e Urbanismo na PUC de Campinas. Ativista feminista negra, já teve textos seus postados no site da revista Marie Claire, Blogueiras Negras, Géledes, Capitolina, Think Olga, Folha de São Paulo e The Huffington Post. Atualmente escreve para o HuffPost e outros portais. Já foi eleita uma das mulheres negras mais influentes da internet, pelo Blogueiras Negras e uma das mulheres Inspiradoras pela Ong Think Olga. Em 2015, recebeu da Assembleia Legislativa de São Paulo a Medalha Theodosina Ribeiro, que homenageou seu ativismo em prol das mulheres negras.  Atualmente está escrevendo seu primeiro livro, pela Companhia das Letras.

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